quarta-feira, 20 de abril de 2016

"A explosão e o suspiro" e seus leitores



Mário: estou ainda tonto com seu livro. É uma história fascinante, de uma coragem raríssima, você foi além de Henry Miller. As partes eróticas são excelentes. Muita coisa me falou de perto, pois vivi naquela BH, dei aulas no Estadual, frequentei o CEC e conheci aquelas pessoas mencionadas. Vivi, de outra maneira, essas crises dos sec. 20/21. Se fosse escrever um ensaio pegaria aquelas muitas definições de "narrativa" que você oferece e que são riquíssimas. Também acho que vivemos dentro narrativas (e já escrevi algo a respeito). Sua capacidade de ser verdadeiro, me lembra o que Mário de Andrade disse ao Fernando Sabino, e que acabou resultando no " Encontro Marcado": cair de quatro. Você caiu de quatro e essa é a sua glória. E as citações fluem naturalmente, algo vivido, sentido, não são artificiais. Você fez algo notável, espero que a crítica faça justiça ao seu talento.

Affonso Romano de Sant'Anna 
(Escritor) 

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Acabei de ler seu livro nesse instante e me apresso a lhe escrever, pois estou bastante impressionada com a sua genialidade, seu erotismo "singelo"(tudo o que você descreve no sexo fica natural), sua erudição profunda, enfim seu amplo conhecimento das artes, da literatura, da filosofia, da antropologia, das religiões, da política, da história, enfim do "zeitgeist" do nosso tempo, de tudo o que vivemos e o que você experimentou - eu fiquei muitas vezes mais como espectadora. Meus parabéns. Minha vontade é de que ele fosse traduzido para todas as línguas para que o mundo todo tomasse conhecimento de uma pessoa que vive num país distante, mas que acompanha tudo o que se passa e se passou em todos os tempos.

Vilma Botrel
(Doutora em Letras Germânicas pela USP, com trabalho sobre Bertolt Brecht. Professora aposentada da FALE/UFMG, em e-mail dirigido ao autor)

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Me permito achar que o livro vai além das citações e mesmo do erotismo. É um livro de PAIXÃO pela palavra e pela escrita. Mário é um POETA lidando com a ficção em forma de gozo. Vamos para os próximos!

Luiz Rosemberg Filho
(Cineasta)

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A EXPLOSÃO E O SUSPIRO ou um corpo que cai, com este belo título, o autor Mário Alves Coutinho constrói um romance que mescla memórias da época  da ditadura, citações de seus autores prediletos, sobretudo William Blake, D. H. Lawrence e James Joyce, e uma linda história de um amor. Um dos maiores tabus da humanidade, a relação incestuosa, é abordado de maneira corajosa. Pode chocar alguns, mas é, antes de tudo, o relato de uma paixão, extremamente bem escrito. Numa história de amor, tudo é permitido.
As páginas mais bonitas são aquelas que o jovem, semivirgem, descobre o amor e o sexo em sua plenitude. O despertar do amor pelo sexo feminino, relatadas com palavras que podem ser chamadas de cruas, são de um erotismo que beira o lirismo. Mário não hesita em descrever os detalhes mais íntimos do corpo feminino. Com paixão e admiração pela beleza que acaba de descobrir. O relato inebriado nos remete ao mesmo tema mostrado, nas artes plásticas, por Gustave Courbet no seu quadro “A Origem do Mundo”, em exibição no Museu D’Orsay, em Paris. Ambos, escritor e pintor, foram cativados por essa beleza que não se cansam de louvar e decantar. Nós, mulheres, agradecemos. Estamos na origem do mundo!

Lucia Helena Monteiro Machado
(É formada em Psicologia e autora de vários livros, entre os quais, “Paris para brasileiros”, “A França que eu amo”, “A Espanha que eu amo”, “Conheça Florença”, “A filha da Paciência”, “Mulheres Incríveis e outras histórias” e “Retratos em busca de uma história”)

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Após publicar livros com traduções de grandes poetas ingleses (Blake, Lawrence), belos ensaios cinematográficos sobre sua admiração maior, Jean-Luc Godard, e escrever roteiros para filmes de longa e curta metragens (três deles dirigidos por mim), Mário Alves Coutinho, intelectual inquieto, sempre em busca de novas experiências, voltou suas baterias para a literatura de ficção. Assim surgiu “A Explosão e o Suspiro ou Um Corpo que Cai”, seu primeiro romance.
Nossa geração sofreu na carne as agruras provocadas pela ditadura que dominava o Brasil. Amigos mortos ou exilados, a falta de liberdade, o medo e a clandestinidade – são dados que marcaram nossas vidas. Natural, portanto, que tudo isso estivesse à origem desta sua obra, que relata com extrema sensibilidade e argúcia aqueles tempos muito difíceis. Só isso já justificaria uma leitura atenta e interessada do livro, que relembra alguns fatos vividos por Mário, somados a outros sobre gente da qual ele ouviu falar e, claro, à imaginação que caracteriza todo bom escritor. 
Mas não basta saber escrever para criar literatura. É preciso estar em sintonia com seu tempo e, sobretudo, conhecer as ferramentas do seu ofício. Mário, leitor contumaz, aprendeu com os mestres dessa arte e produziu uma obra que, sobretudo, se afirma como grande literatura, em um país e uma época que muito precisam disso.

Paulo Augusto Gomes
(Cineasta e ensaísta, autor de “Idolatrada”, corroteirizado por Mário Alves Coutinho, “O Circo das Qualidades Humanas”, em parceria, e do livro “Pioneiros do Cinema em Minas Gerais”)

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 Acabo de ler com encantamento seu romance poético, erótico, erudito, cinematográfico, político, mitológico, psicanalítico, transgressor... uma aposta (apostólico? apoteótico?) na plenitude da vida e como negação da morte.

Anita Vitorino de Castro 
(Psicóloga)

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Gostaria de comentar sobre sua narrativa. Como narrativa de memória, tem todos aqueles comentários do "não tenho certeza", "acho", "se bem me lembro", que são parte essencial desse tipo de narrativa. Como estudante da teoria da memória (ou das memórias, já que há diversos approaches) gostei muito da forma como foi usada, com indas e vindas do presente para o passado e vice-versa, com pulos cronológicos mas tendo explorado bem o kairós. 
A narrativa foi também muito bem elaborada nos focos, no stream of consciousness, nas referências (como eu disse antes, nem todas descobertas por mim, pois tudo vai depender do universo de cultura e leitura do leitor), mas até onde eu as traduzi, muito pertinentemente usadas. Se posso dar um palpite, achei desnecessário listar as fontes que usou, pois a partir de Compagnon, o leitor é quem deve decifrar de qual texto você buscou qual citação ou referência. É um quebra-cabeça que o leitor pós-moderno deve decifrar sozinho – e às vezes é um estímulo para ele buscar as fontes. 
A narrativa da busca é fantástica.
Quanto à temática, é um mergulho na história da segunda metade do século, com as questões políticas, culturais, mudanças de comportamento, etc., que se deram com tanta rapidez naqueles momentos. Foi um mergulho também na minha história, na nossa história, levando a uma inserção na história cultural de nosso povo brasileiro, além de trabalhar com as questões de imigração, desterritorialização, a solidão da diáspora, a busca da identidade. 
Parabéns pelo livro. Esperamos novas contribuições.

Magda Velloso
(Doutora em Literatura Comparada, professora aposentada de Literaturas de Língua Inglesa da UFMG e UFSJ, autora de diversos artigos em periódicos especializados)


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Só posso dizer que estou gostando muito, tanto da narrativa em si como do seu estilo, além da identificação temporal e ideológica com o enredo.

Só acho que seu "orelhista" Werneck não lhe faz justiça ao destacar em demasia a erudição de seu texto. Isso de fato existe, não se pode negar, mas ao contrário do que seria de se esperar, não atrapalha em nada a comunicação com o leitor. E aqui fala um leitor exigente com este aspecto, alguém que tem que ser capturado nas primeiras linhas, sob pena de abandonar a leitura.
 

sábado, 2 de abril de 2016

O poeta Carlos Ávila comenta a "A explosão e o suspiro"


Dom Total - Blogs CULTURA
Explosão & Abrigo
13/04/2016 09:49:38
 

Por Carlos Ávila


Dois lançamentos recentes: “A explosão e o suspiro – ou um corpo que cai” (SP, Ed. Tipografia Musical) – primeiro romance de Mário Alves Coutinho, e “Ao abrigo” (BH, Ed. Scriptum), nono livro de poemas de Ronald Polito. Coutinho é crítico de cinema, ensaísta e tradutor (já entrevistado nesta coluna, quando nos falou sobre Godard – tema de um de seus estudos); Polito também é ensaísta e tradutor, além de poeta (e igualmente já foi assunto da coluna, que abordou suas plaquetes poético-artesanais: Edições Espectro).

Jogo intertextual/metalinguístico

Bem sucedido na crítica e na pesquisa sobre cinema (seu livro “Escrever com a câmera”, sobre Godard, é indispensável para quem se interessa pela obra do grande cineasta francês), Coutinho resolveu correr o risco da criação, com um projeto de romance-ensaio – baseado numa leitura contemporânea das tragédias gregas –, onde o narrado (a trajetória do personagem Eduardo – vivida sob a ditadura militar no Brasil e no exílio – contada à filha Antônia, nos seus últimos dias de vida) vem entremeado a um feixe de citações/apropriações de autores referenciais e digressões metalinguísticas.
A boa ideia-arquitetura do livro (“cinematográfica” – vide o subtítulo hitchcockiano) é ofuscada, de certa forma, pelo excessivo aparato intelectual mobilizado pelo autor; seu texto flui mais (e prende o leitor) quando esses elementos não ficam tão à mostra – como no capítulo que se passa num “aparelho” no Rio: tensão & tesão entre Eduardo e Iolanda.
Paradoxalmente, é justamente a opção de Coutinho por uma forma narrativa algo experimental – e não pelo mero contar linear –, mixando outras vozes (textos) à do personagem/narrador, o que traz a marca da diferença, “transformando a leitura num carrossel de descobertas de intenso fascínio”, como assinalou o poeta Ronaldo Werneck na orelha.
Talvez não fosse necessário o “aviso ao leitor” na abertura do volume: o melhor seria uma breve nota (apenas um “tabuleiro de direção” – como usa Cortázar no seu “Rayuela”) sugerindo as opções de leitura; desnecessária também, a nosso ver, a lista final com a revelação dos autores e livros citados – cabe ao leitor buscar (ou não) essas fontes.
Mas ao fim e ao cabo, Coutinho se sai bem dessa sua primeira investida no campo ficcional; produziu um livro desigual, mas denso – na contramão da mesmice de muita prosa que anda por aí sem preocupação com estrutura e linguagem.

Discurso acidentado 

Tradutor/introdutor de poetas de língua catalã e castelhana no país e ensaísta de peso (seu livro “Um coração maior do que o mundo” é básico para o estudo da obra de Gonzaga), Ronald Polito vem desenvolvendo também um trabalho significativo na área da poesia – “uma poética de gestos mínimos”, como assinalou certeiramente a crítica Vera Lins.
No seu último livro, “Ao abrigo”, Polito continua a escrever em meio ao deserto e ao abismo – metáforas de um entorno hostil; mas entrevê, agora, um possível horizonte (nem que seja um “abismo-horizonte”) – não à toa, horizonte é uma palavra-chave, recorrente nos seus poemas (reiterada em torno de quinze vezes).
“Horizontes afora, adentro” – abrigos para o deslocado/desterrado poeta? Seu “Discurso com orações” – acidentado – conduz, alheio a margens ou miragens, à “Oração” final: “se luz no chumbo do núcleo/(um vulto de mundo)/a transparência que arrepanha/figura e fundo”.
Polito investe numa poética rarefeita – “poeira contra qualquer materialização” (quando muitos continuam presos a padrões modernistas/concretistas, ou até mesmo leminskianos).

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Carlos Ávila

É poeta e jornalista. Publicou, entre outros, Bissexto Sentido e Área de Risco (poesia); Poesia Pensada (crítica) e Bri Bri no canto do parque (infantil). Foi, por quatro anos (1995/98), editor do “Suplemento Literário de Minas Gerais”. Trabalhou também na Rede Minas de Televisão e foi editor do caderno de cultura do jornal “Hoje em Dia”. Participou de mais de vinte antologias no país e no exterior.

Fonte: http://domtotal.com/blog-post.php?blog=carlosavila&post=1125

sexta-feira, 1 de abril de 2016

André Di Bernardi encontra Mário Coutinho



Entrevista concedida a André Di Bernardi, do jornal Estado de Minas, sobre o romance “A explosão e o suspiro ou um corpo que cai”.

1) "Narrar exige o risco". Este alerta aparece já na apresentação do seu livro. A que tipo de perigos fica exposto o escritor quando se depara com a página em branco?
O maior risco de um escritor diante de uma página em branco é a invenção. Ou o silêncio. Mas se ele quer se expressar, tem de enfrentar o perigo: criar personagens, situações, tramas, diálogos que, por mais que alguns queiram, não é a realidade, mas fabulação. E o autor é responsável por cada palavra, ação, acidente ou incidente que escreve e descreve: quer perigo (ou risco) maior?

2) Qual é a história do livro? Fale um pouco sobre o processo de construção do enredo do livro. Fale um pouco sobre o processo criativo.
O livro trata de um momento crucial da história brasileira: a luta armada contra a ditadura militar, na década de sessenta. Um homem e uma mulher ficam fechados num "aparelho", sem comunicação com o mundo. Acontece o que sempre se pode prever numa situação como essa. Eles têm que se exilar, em outro país: primeiro é o Chile, depois a Austrália. Um pouco da história do Brasil e do mundo desfila diante de nossos olhos. Resumindo: trata-se de uma tentativa de releitura, num romance moderno, das "Tragédias do Ciclo Tebano", de Sófocles ("Édipo Rei" é uma das peças deste ciclo). O que me levou a escrever este romance foi um roteiro cinematográfico que escrevi alguns anos atrás: o roteiro havia sido escrito a partir do que os franceses chamam "fait divers", isto é, uma notícia de jornal (mãe que havia entrado na guerrilha urbana com dois filhos). Mudei razoavelmente a história original, realmente acontecida, assim como transformei o roteiro extensamente, quando quis escrever o romance (desde o momento que comecei a escrever o roteiro, sabia que faria o romance. Passaram-se muitos anos, mas realmente o escrevi). Cada estrutura narrativa (matéria de jornal, roteiro, romance) pede uma nova estrutura, uma nova linguagem, uma nova maneira de contar. Adequar o que estava tentando fazer à linguagem literária (romanesca) foi todo meu esforço durante o tempo que levei para escrever este romance.

3) Em quanto tempo o livro ficou pronto?
Levei mais ou menos um ano para escrevê-lo. E quatro para revisá-lo inúmeras e inúmeras vezes...

4) Qual foi, ou quais foram suas maiores dificuldades para escrever o livro?
Muito cedo na feitura deste livro, ficou claro que eu queria escrever uma versão moderna das "Tragédias do Ciclo Tebano", de Sófocles. A maior dificuldade que enfrentei, então, foi adequar essa intenção e objetivo com o enredo que eu estava "criando, e atualizando". Outra dificuldade que tive foi ao escrever o final do romance. Mas essa dificuldade foi vencida com uma certa dose de inventividade: a partir de um determinado momento, decidi que o romance teria dois finais, e que o leitor escolheria aquele que preferisse (até mesmo podendo inventar outro, caso sentisse essa necessidade).

5) Também está na apresentação da obra: o livro é "um narrar que é uma reflexão sobre o ato de narrar, trazendo ares de um metarromance em que o narrador/autor se vale larga e radicalmente da intertextualidade, da citação, da montagem para construir uma história que mais é uma ode à vida". Por favor, fale um pouco sobre isso. 
A arte moderna (romance, cinema, poesia) é quase sempre metanarrativa. Estamos quase sempre lendo (ou vendo) obras que descrevem como foram feitas, como foram imaginadas, como foram desejadas... Não é de se espantar, portanto, que neste quadro, eu tenha procurado refletir sobre o que exatamente estava fazendo, ou melhor, o que o personagem-narrador do livro queria fazer. Ao discutir isso ele está se justificando, mas ao mesmo tempo, tentando se inserir numa tradição... Tudo que escrevo, afirma a vida, mesmo na tragédia, principalmente na tragédia... Isso aprendi com os gregos, com Nietzsche, William Blake e D. H. Lawrence.

6) No livro existem inúmeras citações, fragmentos de frases de vários autores. Como funciona para você, na obra, este diálogo constante com outros autores. Qual a importância deles para o entendimento do livro?
Aprendi com Jean-Luc Godard como citar toda a cultura moderna (não somente a literatura) e apesar disso, fazer um texto seu, totalmente seu. Todo livro é a reação a um outro livro, a não ser o primeiro livro, que ninguém sabe qual é. Vários escritores afirmaram: a literatura é um feito da linguagem, nunca a realização de algum nome individual e autárquico. Assim, quando numa passagem, num diálogo, num acontecimento do romance eu chegava perto de uma frase de um outro autor, de um verso, ou outro qualquer texto, não tive pudor: citei este autor. Dessa maneira, dialoguei com várias obras e autores; por isso, acredito que meu romance foi criado a várias vozes: não somente com a minha, mas com a colaboração da História da Literatura, ou parte dela. Entender isso é essencial para a compreensão do meu romance. Dessa maneira, esses vários autores como que compõem um coro, exatamente como na tragédia grega: essas vozes como que comentam, poetizam, e relançam a ação para outros caminhos...

7) Narração, carta, confissão, testamento, diário, biografia e memória. Ao lermos o livro tudo isso se mistura, aparece e desaparece num véu, numa trama muito bem construída. Fale sobre esse processo. 
O romance é um gênero todo-poderoso exatamente por causa disto: ele pode ser tudo isto, e muito mais: poesia, prosa, ensaio, música... Resumindo: ele não é um gênero puro, mas o exato contrário: impuro e todo misturado por escolha e autodefinição. Daí sua enorme capacidade de síntese e suas quase infinitas possibilidades de expressão

8) No texto surgem nomes da alta literatura, como Jorge Luis Borges, Valéry, Deleuze, Mallarmé, Shakespeare, Octavio Paz, entre muitos, muitos outros. Sei que o leque de autores que fazem parte de seu universo é extenso, mas, você poderia citar alguns nomes que realmente influenciaram na sua literatura? 
Além dos que você citou, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Stendhal, Jean-Luc Godard, Hitchcock, William Bake, D. H. Lawrence, Georges Bataille, Kenji Mizoguchi, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke, Sófocles, Nietzsche, Julio Cortázar, James Joyce, Slavoj Zizek, Gustave Courbet e muitos, muitos outros...

9) O livro, que já no título faz alusão a Alfred Hitchcock, é dedicado a André Bazin e Jean-Luc Godard. Em que medida o cinema o influenciou na trajetória, no enredo, na elaboração do livro? 
Sou responsável por três livros sobre Jean-Luc Godard (e participei de um quarto); traduzi um livro de André Bazin, que sairá em breve, no próximo mês, provavelmente, pela Editora Autêntica; escrevi muito sobre Hitchcock em jornais e revistas, e meu próximo livro, depois das traduções de Bazin, será sobre ele (o livro já está pronto). Como você pode ver, seria difícil eles não estarem no meu romance. Como? Resumidamente, Godard e Bazin me ensinaram a articular a descrição da realidade com a invenção. E Hitchcock teve particular importância quando se tratou de construir um clima para o meu romance. Além de contribuir para a criação de uma cena muito importante, que convido o leitor a descobrir...

10) Fale um pouco sobre a experiência de ter publicado este primeiro romance.
Já havia escrito alguns roteiros cinematográficos (filmados); portanto a linguagem da ficção não era estranha para mim. Mas o romance é uma outra linguagem, uma outra forma, que tive que aprender enquanto escrevia. Para isso, me valeu minha enorme experiência de leitura: acho que desde os nove anos leio este formato tão includente, o romance. Ao final e ao cabo, uma aprendizagem muito difícil, mas extremamente prazerosa.

11) Quais são seus projetos para o futuro na área da literatura?
Ainda não parei para examinar esse problema. Mas quase que certamente tentarei escrever o destino de um dos personagem deste romance...

terça-feira, 15 de março de 2016

Uma colagem de referências que casa cinema e literatura

Mário Alves Coutinho lança romance “A Explosão e o Suspiro ou um Corpo que Cai” hoje na Quixote

H-A
Estreia. Crítico de cinema e ensaísta, Mário Alves Coutinho estreia no romance com “A Explosão e o Suspiro”

PUBLICADO EM O TEMPO - 12/03/16 - 03h00
Daniel Oliveira


 Mário Alves Coutinho começou a escrever o que viria a ser o romance “A Explosão e o Suspiro ou um Corpo que Cai” duas vezes, para desistir logo em seguida. A autocrítica era alta porque o que ele queria fazer não era simples. “Assim como ‘Ulisses’ é uma tentativa de releitura da ‘Odisseia’, meu romance, modestamente, é uma tentativa de releitura do ‘Édipo Rei’. E enquanto eu tentei interpretar ou fugir demais da linha do original, não fiquei satisfeito”, explica o autor.
Foi só em 2011 que ele encontrou essa essência básica da peça de Sófocles e escreveu, por um ano, o primeiro tratamento do livro que ele lança hoje, às 11h, na livraria Quixote. Seriam ainda mais três anos reescrevendo a história de Eduardo, que conta para a filha Antônia sua história na guerrilha durante a ditadura, e no exílio no Chile e na Austrália, ao lado da mãe dela, Iolanda.
Mudanças e transformações, no entanto, não são algo estranho a “A Explosão e o Suspiro”. O projeto começou como um roteiro, escrito por Coutinho anos atrás, inspirado na história real de uma mineira que ingressou na guerrilha junto com os dois filhos. “Eu fantasiei um pouco, criei um marido esperando por ela, mas já sabia que queria transformar aquilo em um romance. E foi só quando mudei um pouco o foco da história que consegui fazer isso”, revela.
E “Édipo Rei” não foi a única referência que o escritor usou nessa adaptação. Na apresentação de “A Explosão e o Suspiro”, o crítico e poeta Ronaldo Werneck define a obra como “uma colagem de livros e referências (...) formada por pensatas que se imbricam como fotogramas a serem montados num raccord cinematográfico”.
“Se a base do livro é o ‘Édipo Rei’, as citações servem como o coro da tragédia grega, comentando a ação e conectando o que acontece com a cultura e a sociedade em volta”, define Coutinho. A obra, não por acaso, é dedicada ao cineasta Jean-Luc Godard, que o autor pesquisou em seu doutorado, e que ficou eternizado ao realizar esse mesmo tipo de colagem de citações e referências no cinema.
“O livro é uma tentativa de fazer no romance o que o Godard faz no cinema dele”, admite o autor, que já escreveu três livros sobre o diretor francês. Além dele, “A Explosão e o Suspiro” é dedicado ao crítico André Bazin, que terá vários de seus ensaios publicados no Brasil em abril, pela editora Autêntica, com tradução do próprio Mário Alves Coutinho.
A referência mais clara do romance, no entanto, é explicitada pelo autor no próprio título. Assim como o clássico filme “Um Corpo que Cai”, de Alfred Hitchcock, Coutinho admite que seu livro é, de certa forma, a história de um homem tentando construir, ou reconstruir, uma mulher. “Se Bazin e Godard me ensinaram como misturar realidade e ficção, o Hitchcock entra com a capacidade dele de estabelecer climas diferentes para diferentes momentos de suas obras”, explica.
Para Coutinho, esse grande passeio pelo cinema não faz de “A Explosão e o Suspiro” menos literário, ou menos romance – pelo contrário. “O romance não é um gênero fechado, puro. O meu, às vezes, é ensaístico. Para mim, o romance é uma mistura da literatura com o cinema”, define.
Agenda
O quê. Lançamento “A Explosão e O Suspiro ou um Corpo que Cai” (ed. Outras Grafias, 280 págs., R$ 54)
Quando. Hoje, às 11h
Onde. Livraria Quixote (rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi)

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Narrativa mistura memória e thriller


Mário Alves Coutinho lança hoje 'A explosão e o suspiro'

Primeiro romance do autor é repleto de referências à sua geração




André Di Bernardi Batista Mendes - Estado de Minas - Publicação:12/03/2016 08:00

 O mineiro Mário Alves Coutinho acaba de lançar, pela Série Outras Grafias, da Editora Tipografia Musical, seu primeiro romance, A explosão e o suspiro ou um corpo que cai. Graduado em psicologia, doutor em literatura comparada, com pós-doutorado na UFMG, Coutinho, que nasceu em Campo Belo, faz valer sua formação e utiliza uma extensa erudição para construir um romance correto, repleto de idas e vindas, lacunas, abismos, um romance feito de teias que se cruzam, um romance escrito sem pedantismo, mas com uma linguagem peculiar, cheia de melodia, longe do exagero e da verborragia.

O leitor é fisgado para dentro da história de Eduardo, o personagem-narrador. Em poucas palavras, o livro conta as peripécias de um tradutor literário, nos seus últimos dias de vida, que tem algo de muito importante para revelar à filha, Antônia, sua interlocutora. Mário Alves mostra essa trajetória e monta uma trama muito bem alivanhada desde a infância e a adolescência de nosso “herói” em Minas Gerais até o Rio pós-64, passando pelo contato com grupos de resistência e a luta armada. Ferido num assalto e cuidado por sua companheira Iolanda, ele vai para o Chile e, dali, para a Austrália, pouco antes da queda do presidente socialista Salvador Allende. Ali nasce Antônia.

FRAGMENTOS Juntando fragmentos de frases de vários autores, pleno de colagens e citações, Mário Alves constrói um mosaico repleto de intertextualidade, tendo a imagem como fonte e referência constantes. Não por acaso, o livro é dedicado a Jean-Luc Godard. Vale lembrar: Mário Alves Coutinho também é crítico e ensaísta de cinema. “Mas o que será exatamente, então, este relato, esta narração? Uma carta? Uma confissão? Um testamento? Um diário? Biografia? Memória? Talvez tudo isso ao mesmo tempo, e tudo isso ao mesmo tempo não seria um romance?”, pondera, num dado momento, o narrador do livro.

Mário Alves também não deixa de lado um tanto de ousadia, tudo na medida certa, quando, ao longo das veredas propostas, inclui ali um toque sutil, apimentando a trama com boas doses e belos momentos de um erotismo forte. “O livro trata de um momento crucial da história brasileira: a luta armada contra a ditadura militar, na década de 1960. Um homem e uma mulher ficam fechados num aparelho, sem comunicação com o mundo. Acontece o que sempre se pode prever numa situação como essa. Eles têm que se exilar em outro país: primeiro é o Chile, depois, a Austrália. Um pouco da história do Brasil e do mundo desfila diante de nossos olhos. Resumindo: trata-se de uma tentativa de releitura, num romance moderno, das Tragédias do ciclo tebano, de Sófocles”, ele explica.

O autor fala também sobre os caminhos dessa história. “O que me levou a escrever esse romance foi um roteiro cinematográfico que escrevi alguns anos atrás. O roteiro havia sido escrito a partir do que os franceses chamam fait divers, isto é, uma notícia de jornal (mãe que havia entrado na guerrilha urbana com dois filhos). Mudei razoavelmente a história original, realmente acontecida, assim como transformei o roteiro extensamente. Desde o momento em que comecei a escrever o roteiro, sabia que faria o romance. Passaram-se muitos anos, mas realmente o escrevi”, finaliza.

A EXPLOSÃO E O SUSPIRO OU UM CORPO QUE CAI
• De Mário Alves Coutinho
• Editora ETM, 280 páginas, R$ 54
• Lançamento: Hoje, a partir das 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, 3227-3077)