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terça-feira, 18 de abril de 2017
quinta-feira, 13 de abril de 2017
IV Dia do Contrabaixo ESMU/UEMG [divulgação]
IV Dia do Contrabaixo é a continuação de um evento anual de sucesso realizado pela ESMU/UEMG. Este evento congrega alunos e professores da ESMU e alunos e professores de outras escolas de música de Belo Horizonte, da grande BH e outros estados. O foco principal é a troca de conhecimento durante as master classes, recitais e mesa-redonda.
O Dia do Contrabaixo é uma oportunidade de abrirmos as portas da ESMU/EMG para futuros candidatos ao curso de contrabaixo de Graduação e Licenciatura. Durante o evento a organização disponibiliza todas as informações sobre os cursos que a Escola de Música da UEMG oferece.
Todo ano o evento apresenta um convidado especial. Desta vez, o convidado será o contrabaixista Pedro Gadelha (Osesp).
O Dia do Contrabaixo é uma oportunidade de abrirmos as portas da ESMU/EMG para futuros candidatos ao curso de contrabaixo de Graduação e Licenciatura. Durante o evento a organização disponibiliza todas as informações sobre os cursos que a Escola de Música da UEMG oferece.
Todo ano o evento apresenta um convidado especial. Desta vez, o convidado será o contrabaixista Pedro Gadelha (Osesp).
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Estará à venda durante o evento o livro "Sistema de arcadas e golpes de arco em escalas e arpejos para contrabaixo", de Ana Valéria Poles [1º Contrabaixo Osesp], publicado pela Tipografia Musical.
Dia 29 de abril de 2017
9h às 19h
Auditório Fernando Coelho
Escola de Música da UEMG
Rua Riachuelo, 1321, Belo Horizonte/MG
terça-feira, 4 de abril de 2017
Editora Tipografia Musical e Livraria da Travessa
Acabamos de fechar parceria com mais uma excelente livraria. Todos os nossos títulos podem ser encontrados agora nas charmosas lojas da Livraria da Travessa [Rio de Janeiro e Ribeirão Preto/SP].
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quarta-feira, 22 de março de 2017
sábado, 18 de março de 2017
quinta-feira, 16 de março de 2017
CIGAM Tiradentes
Temos o prazer de divulgar e indicar o início das atividades do Centro Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical (CIGAM) na cidade de Tiradentes, MG.
Ian Guest, húngaro radicado no Brasil desde 1957, é um verdadeiro protagonista dos bastidores do cenário musical brasileiro, que dispensa maiores apresentações.
Então, vamos ao CIGAM Tiradentes!
Ian Guest, húngaro radicado no Brasil desde 1957, é um verdadeiro protagonista dos bastidores do cenário musical brasileiro, que dispensa maiores apresentações.
Então, vamos ao CIGAM Tiradentes!


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domingo, 12 de março de 2017
Charlie "Yardbird" Parker — August 29, 1920 – March 12, 1955
O
enorme sim de Charlie Parker
por Mário Alves Coutinho
Como pôde o aparente perseguido deixar à mostra
[...] toda sua grandeza humana de um perseguidor do impossível?
Davi Arrigucci Jr., em O escorpião encalacrado
Como o rock, hoje, o jazz já despertou (e continua a
despertar) muitas paixões. Não por acaso, esses dois gêneros musicais tiveram a
mesma origem: o rhythm and blues, no sul dos Estados Unidos, na comunidade
negra, produto da “combinação de escalas africanas com harmonias europeias”
(Eric Hobsbawm, História Social do Jazz,
1990). Transformaram-se, no devido
tempo (depois da Primeira Guerra Mundial, no caso do jazz; depois da Segunda,
no caso do rock), em linguagens musicais mundiais (conjuntos de jazz e bandas
de rock passaram a existir no mundo inteiro, aculturando-se em praticamente
todos os países do Ocidente). Não é estranho a esse desenvolvimento o fato de os
Estados Unidos terem se transformado num império (econômico e cultural): jazz e
rock passaram a fazer parte de um idioma mundial, sua língua franca, aquela
através do qual as várias partes desse império dialogam entre si e consigo
mesmas.
No início do século passado, coincidindo exatamente
com o momento em que os Estados Unidos passaram a ser a maior potência
econômica do mundo, parecia que esta língua franca seria o cinema, outra arte
eminentemente americana (apesar de inventada pelos Irmãos Lumière, franceses).
Mudo, baseando suas possibilidades expressivas apenas nas imagens em movimento,
luzes e sombras, o cinema parecia ser essa linguagem universal, compreendida
por todos intuitivamente, independente de qualquer idioma. Foi quando à imagem
acrescentou-se o som, a fala, e o diálogo, em 1927. A partir daí, a magia
se quebrou, o cinema deixou de ser “ingênuo”, sofisticou-se, ficou moderno e
perdeu essa característica de linguagem universal. Embora o primeiro filme
sonoro tenha se chamado O cantor de jazz
(mas o personagem-título era interpretado por um ator branco, judeu, com a
cara pintada de preto), o cinema americano, curiosamente, quase nunca deu a
importância a essa música: na verdade, reprimiu-a. Hobsbawm comenta: “O
principal órgão internacional de disseminação do american way of life, Hollywood, sempre deu muito pouca importância
ao jazz, por se tratar de um gosto de minoria na América”. A partir da década
de 1980 isso muda relativamente, e vários filmes sobre jazz foram realizados,
inclusive um sobre Charlie Parker, dirigido por Clint Eastwood. Pouco
interessado na biografia de Parker, o filme concentra-se no essencial: sua
música. A trilha sonora de Bird,
retrabalhada com os recursos dos estúdios de som modernos, é magnífica.
Não por acaso, é a partir da década de 1930 que o jazz
passa a seduzir quase todo o Ocidente, intelectuais sofisticados e público
comum, na mesma intensidade. Qual a razão para esse fato? Será que se trata,
mais uma vez, do fascínio que o vital, forte e inocente sempre teve – é só se
lembrar da importância que a construção teórica do “bom selvagem” teve para a
filosofia e a ciência política moderna – para o Ocidente sofisticado e
desvitalizado? (“A busca da contrapartida pura, inocente, e natural para a
sociedade ocidental burguesa é tão antiga quanto a própria sociedade,
refletindo a permanente consciência que ela tem de suas falhas fundamentais”, analisa
Eric Hobsbawm). Será que os lugares
díspares onde o jazz foi tocado, inicialmente, ou de onde se originou (bordéis,
igrejas, saloons e cantos de trabalho) têm a ver com sua extraordinária
vitalidade? Ou, então, a explicação seria econômica? “...sempre que uma
solicitação anticomercial se torna grande o suficiente (dentro das condições do
capitalismo), ela passa automaticamente a ser comercial e a ser fornecida pela
indústria com a maior intensidade possível, até ser diluída em papinha”
(Hobsbawm).
Ou será que essa paixão pelo jazz se deve ao fato de,
neste gênero musical, na figura do executante estarem reunidas as imagens do
intérprete e do compositor? (Uma de suas características definidoras não é
exatamente a improvisação, “variações melódicas a partir de uma determinada
base harmônica”? – Hobsbawm). Será que o fato de ser, paradoxalmente, “a arte
do músico individual”, mas, ao mesmo tempo, “quase que exclusivamente um
exercício comunal” não determinou essa paixão?
Paixão esta que cobre todo o espectro ideológico: vai
desde o historiador marxista inglês, Eric J. Hobsbawm, passa pelo excepcional
poeta, também inglês, Philip Larkin (praticamente desconhecido no Brasil, um
autor conservador, assumidamente reacionário), e marca também a obra do
magistral contista e romancista argentino Julio Cortázar, defensor incansável
da utopia socialista e revolucionária.
Hobsbawm (1917) publicou um livro fundamental, História Social do Jazz, no qual este
gênero musical era analisado em todos seus aspectos: históricos, musicais,
econômicos, biográficos. Philip Larkin
(1922-1985) escreveu alguns dos melhores versos da pós-modernidade; em alguns
deles, o jazz e a música têm papel destacado. Num poema de 1954, por
exemplo, “Para Sidney Bechet”, ele
disse que “On me your voice falls as they say love should,/ Like an enormous
yes [...].” (Tradução literal: “em mim,
sua voz cai como dizem que o amor deveria/ como um enorme sim.”) Já em All What Jazz (Faber and Faber, London,
1985) ele recolheu todas as suas
resenhas sobre discos de jazz que havia escrito para um jornal, o Daily Telegraph, durante o período 1961-1971. Fica claro, desde o começo, os músicos
dos quais ele gosta e defende com determinação: Louis Armstrong, Sidney Bechet,
Duke Ellington (“poucas coisas na vida me deram mais satisfação do que ouvir
jazz”), jazzistas, pode-se dizer, clássicos.
Quando fala do bebop, e do músico com o qual tudo começou, Charlie Parker, o tom muda.
No início, a admiração parece ser enorme: “ouvindo Parker, temos a impressão de
um homem que não somente podia traduzir suas ideias em notas musicais a uma
velocidade sobre-humana, mas que era simultaneamente consciente de meia dúzia
de outras maneiras de resolver qualquer situação musical, ao mesmo tempo que
podia referir-se a todas elas, indo além delas”. Mas em textos posteriores, ele
afirma, por exemplo: “esta não era, numa palavra, música de homens felizes”. Ou
então, “esta é minha crítica básica ao modernismo, quer seja perpetrado por
Parker, Pound ou Picasso: não nos ajuda nem a ter prazer, nem a resistir”. Mais
adiante, “pior do que tudo, era a natureza atormentada, infeliz, febril, a
natureza tensa da música”. Numa determinada passagem, chega a fazer referência
“à impressão de alucinação mental que ele transmitia”.
Mas é quando fala de como o jazz nasceu, que sua
posição fica clara: “o negro não criou o ‘blues’ porque era naturalmente
melancólico. Ele o criou porque foi trapaceado, tiranizado e passou fome. Acabe
com isso, e o ‘blues’ pode acabar, também”. Philip Larkin quase que chega a
defender, no texto do qual foi extraída essa citação, a ideia de que o negro
deveria continuar a ser explorado; de outra maneira, o jazz que dava prazer a
ele, o pré-moderno, poderia se acabar. (Essa posição não pode ser creditada
somente ao poeta inglês. Um crítico de jazz dizia, em 1959: “Parker não teria
feito nunca sua valiosíssima contribuição para o jazz se tivesse sido protegido
dos reveses da vida”, citado em O
escorpião encalacrado, Davi Arrigucci
Jr., 1973). Ao mesmo tempo, Larkin como que decretava que o jazz era somente
felicidade, ritmo, encantamento; o sofrimento, melhor dizendo, a revolta, não
poderia transparecer. Em outras palavras, ele estava dizendo que o jazz é (ou
deveria ser) a arte do perseguido, música em resposta ao sofrimento, nunca algo
autônomo, que juntasse o prazer e a tragédia, como toda grande arte.
Julio Cortázar (1914-1984) é autor de ensaios bastante
característicos sobre jazz: em Valise de
Cronópio (Editora Perspectiva, 1974), ele escreveu, por exemplo, peças
admiráveis sobre Clifford Brown, Thelonious Monk e Louis Armstrong, em que o
sentido da trajetória existencial dos músicos e a música que eles constroem e
fazem é uma só e mesma coisa (“descrição de uma felicidade efêmera e difícil”:
ele, aqui, está falando de Clifford Brown. Na verdade, de todo o jazz). Para
Cortázar, ao contrário de Philip Larkin, o jazz que realmente contava, o de
Charlie Parker, por exemplo, era música do perseguidor, nunca do perseguido.
Negro, pobre, doente, viciado em drogas, discriminado racialmente, seria
facílimo dizer (e provar) que Charlie Parker (ou qualquer jazzista negro) era
um perseguido, vítima da sociedade. Numa novela que publicou em As armas secretas, com o título
emblemático de “O perseguidor”, Cortázar criou uma personagem, Johnny Carter,
no qual ele recria a música e a trajetória de Charlie Parker. Ali, Johnny
Carter, aliás Charlie Parker, quando faz sua música no saxofone alto, não é
nunca uma vítima, mas um caçador (na belíssima elaboração/construção metafórica
do autor, “... lebre que corre atrás dum tigre que dorme”).
Para Cortázar, o artista é ativo, e não passivo, e usa
sua imaginação para criar. Na verdade, ele emprega todas as suas faculdades
para perseguir o real e a sua expressão (tradução), isto é, para interpretar e
dar sentido ao mundo, um sentido que nunca está (ou é) dado uma vez por todas.
Ao se referir a Johnny Carter, o narrador da novela diz: “Johnny não é uma
vítima, não é um perseguido como toda gente pensa [...] Johnny persegue em vez
de ser perseguido [...] tudo que lhe está a acontecer na vida são azares de
caçador e não de animal acossado. Ninguém pode saber o que Johnny persegue...”
Metáfora particularmente feliz para falar de um
jazzista, a ideia da perseguição
concretiza o fundamental nesse tipo de música: correr atrás de uma ideia,
desenvolver um tema, improvisar, buscar a síntese entre o dionisíaco e o
apolíneo, entre o homem que sofre e aquele que expressa, numa linguagem
superior e sofisticada, esse mesmo sofrimento. Mas não somente isso: transforma
o artista em ser ativo, que dá sentido à sua vida, que trabalha, procura e faz;
concepção inversa do artista romântico, que apenas reage, e é somente
intuitivo.
Perseguido ou perseguidor? Influenciado pelas
circunstâncias históricas, sociais, econômicas ou raciais dentro das quais
nasceu, ou então, ao contrário, agente livre, construtor e definidor
independente da sua vida e obra? Produto do meio em que nasceu ou das suas
próprias escolhas, sonhos e lutas? Embora Larkin diga que “Parker não sucedeu
ninguém, como Armstrong sucedeu Oliver. Ele simplesmente apareceu”, isso não é
verdade: ele atuou dentro de uma linguagem musical, o jazz, com uma tradição já
estabelecida; e seu estilo foi influenciado, reconhecidamente, por Lester
Young, por exemplo. Produto, portanto,
do meio em que nasceu, mas não somente: dialeticamente, definiu, também, seu
caminho, reagiu a seu destino, dando um outro sentido a ele, e nesse ponto
Larkin tem razão, revolucionando a linguagem musical do jazz (algo que o poeta
inglês tem particular antipatia: “eu não tinha compreendido que o jazz tinha
evoluído de Lascaux até Jackson Pollock em cinquenta anos...”, All What Jazz).
Representante maior da humanidade, o artista, como
qualquer homem comum, não é somente produto do meio no qual vive: ele pode, e
geralmente consegue, propor os seus próprios termos, recriar todo o mundo em
determinados momentos, circunstâncias e espaços (o da sua obra,
principalmente). Cortázar diz tudo isso numa fala de seu personagem, Johnny
Carter (as letras inicias do nome do personagem, JC, são também as de Julio
Cortázar e Jesus Cristo, como lembrou Davi Arrigucci no seu livro sobre
Cortázar: é preciso não se esquecer, a propósito disso, das origens religiosas
do jazz, e a trajetória “crística” de Charlie Parker, aliás Johnny Carter,
morto aos 34 anos), em que sua música produz a divindade: “eu não sei se há
Deus, toco a minha música, faço o meu Deus” (“O perseguidor”). Ecos de Franz
Schubert, que morreu com 31 anos? (“Vivo e componho como um deus, como se, na
verdade, nada no mundo fosse possível”, Franz
Schubert’s Letters and other writings, 1974). Johnny Carter e Charlie Parker realizaram, com sua música, algo
que os deuses – que nós criamos à nossa imagem e semelhança, é bom lembrar –
sempre fizeram, e que cada um de nós tem a obrigação de pelo menos tentar, em
alguns momentos da vida: criar seu próprio universo, com suas próprias leis e
características, e não somente viver em um mundo estabelecido pelos
outros, no máximo reagindo a ele.
Não é por outro motivo que, depois de dizer que Johnny
Carter “é como um anjo entre os homens”, o narrador de “O perseguidor” se corrige: “Johnny é um homem entre
os anjos, uma realidade entre as irrealidades que somos todos nós”. Homem, sim,
mas com o atributo divino de criar um universo pessoal, com suas próprias
condições. Exatamente como afirma o narrador noutras passagens: “... em todos
eles tocava como [...] só um deus pode tocar um sax alto...”. Ou então, “a
grandeza humana e artística de Johnny está nesse querer, até a morte, o
impossível...” Dessa maneira, mais uma vez Charlie Parker, aliás, Johnny
Carter, conseguia evadir-se do perigo apontado por Philip Larkin: “Numa
sociedade humanista, a arte – e especialmente a arte moderna – assume grande
importância, e perder contato com ela é a mesma coisa que perder a fé numa
época religiosa”.
Perseguido
pelo racismo, pobreza e doença, mas perseguindo e construindo sua música, seus
temas, suas variações, além do sentido e significado da vida, Charlie Parker,
como diz o narrador em “O perseguidor”, era “dotado, como tantos músicos,
tantos jogadores de xadrez, e tantos poetas, com o dom de criar coisas
extraordinárias sem ter a mínima consciência [...] das dimensões da sua obra”.
Perseguido e perseguidor, Charlie Parker, para usar o poema de Larkin sobre
Bechet, construiu com sua obra um “enorme sim”, passando a ser uma das
afirmações máximas da necessidade sempre presente da tentativa: “nós que
imbatidos só ficamos/ porque em tentar perseveramos” (T. S. Eliot, “Quatro
Quartetos”, tradução de Ivan
Junqueira).
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
65 anos do CEC
Compartilhamos o convite do evento em homenagem aos "65 anos do CEC", que contará com livros, trilhas de filmes e ótimo papo com grandes especialistas e apaixonados pelo cinema... e terá livros do nosso autor Mário Alves Coutinho.
A festa será no dia 18/02/2017, a partir das 11h, na Livraria Ouvidor da Savassi, em Belo Horizonte/MG.
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Philip Glass 80 anos: ensaio e entrevista

Philip Glass: uma cerimônia secreta
[ensaio publicado no Suplemento Literário de Minas
Gerais, abril/1997]
por Mário Alves Coutinho*
Beauty is truth, truth beauty, — that is all
Ye
know on earth, and all ye need to know
[John Keats, “Ode on a Grecian Urn”]
A beleza é a verdade, a verdade
beleza
— É tudo o que há para saber, e nada
mais.
[tradução
de Augusto de Campos]
Philip Glass
(31/1/1937-), compositor americano, alguns anos atrás [em 12/1/1996], deu um
concerto em Sydney, Austrália.
Vê-lo tocar na Opera
House de Sydney (uma das obras-primas da arquitetura moderna) algumas das suas
peças para piano (solo) foi um espetáculo verdadeiramente religioso, ainda que
singularmente contido. Ali estava um dos maiores compositores modernos sem o conjunto
com o qual trabalha habitualmente – The Philip Glass Ensemble –, nenhuma
amplificação, nenhuma companhia de ópera, nenhuma orquestra, cantor algum, apenas
cercado pela audiência por todos os lados (e não na sua frente e distanciado da
plateia, como é comum nas salas de concerto), como que fechando um círculo
mágico.
Ele chegou, se
sentou, concentrado, parco na sua gesticulação e expressão facial. Suas mãos
começaram a se movimentar e, subitamente, do piano começaram a sair harmonias
claras, lógicas e rigorosas. Sons exatos, puros, quase matemáticos, de tão
precisos: não é por acaso que ele é chamado de “minimalista”, embora sempre
diga que nunca pertenceu a nenhuma escola e que o termo não foi escolha sua.
(Apesar de sua discordância, se a definição de “minimalista” for “expressar o
máximo, com o mínimo de recursos”, não vejo como não aceitar essa
classificação: ao contrário, ela define muito bem a sua música.)
Compositor de óperas
(“Einstein on the Beach”, 1975; “Satyagraha”, 1980; “Akhnaten”, 1985; “La Belle
et la Bête”, 1994), trilhas sonoras para teatro (“The Photographer”, 1983;
“1000 Airplanes on The Roof”, 1989; “The Screens”, 1992), balé (“Dance Pieces”,
1982; “Dance Numbers 1-5”,
1988), e cinema (“North Star”, 1977; “Koyaanisqatsi”, 1983; “Mishima”, 1985;
“Powaqqatsi”, 1988; “Anima Mundi”, 1993; “Thin Blue Line” e “A Brief History of
Time”), Philip Glass trabalha, também, numa vertente mais sinfônica: “Low
Symphony” (1993), uma colaboração especial e diferente entre Philip Glass,
David Bowie e Brian Eno, e “Itaipu” (1988), em que, no quarto movimento, ele
usa a língua dos índios brasileiros, o guarani (ele que já usara a língua hopi,
dos índios norte-americanos, em “Koyaanisqatsi”). Seu contato com o Brasil,
aliás, não para aí: uma de suas mais emocionantes peças para piano (da qual ele
tocou alguns movimentos neste concerto de Sydney) foi composta para uma
montagem do diretor brasileiro Gerald Thomas. Ele é o autor, também, de
belíssimas (sublimes seria a palavra mais justa) peças para piano: “Glassworks”
(1982), “Solo Piano” (1989) e “Six Études” (obra em progresso).
Uma das
características definidoras de sua obra: a participação do público (ou melhor,
do ouvinte), cantando interativamente com os seus intérpretes. Você duvida?
Coloque no seu CD (ou eletrola) “Koyaanisqatsi”, “The Photographer”, “Songs from
Liquid Days” (l986), “North Star”, “Akhnaten” ou “Satyagraha”, e imediatamente,
sem querer, sem mesmo notar, você estará vocalizando junto com os cantores.
Sons primitivos, além das letras, eis o que torna fácil (?) e exaltante
acompanhar qualquer música de Philip Glass; mesmo quando não existe voz na
gravação, sentimos um convite (desejo?) explícito: colocarmos a nossa. Poucas
vezes o simples ato de ouvir música terá se transformado em uma experiência tão
eminentemente dionisíaca, quer dizer, tão reverentemente mística.
Alguns exemplos
disso? A entonação da palavra “koyaanisqatsi” (do hopi, significando, entre
outras coisas, “vida fora do equilíbrio” ou “uma maneira de viver que pede uma
outra vida”), na obra de mesmo nome, repetida durante quase toda música. Ou,
então, uma flauta repetindo obsessivamente a mesma frase, contra a orquestra,
em “Offering”, do disco “Passages” (1990), realizado conjuntamente com Ravi
Shankar. (“Ravi, e não as drogas propriamente ditas, foi minha verdadeira
viagem de LSD”, disse Glass em uma entrevista.)
Na verdade, o que
Philip Glass canta em sua obra é o respeito pela Terra e pelos homens (numa
outra entrevista, ele disse que sua obra é programática, e que quase toda ela
nasceu como uma resposta à natureza). Sua música faz lembrar a última frase de
“The Marriage of Heaven and Hell” (“O casamento do Céu e do Inferno”), do poeta
inglês William Blake (1757-1827), “For every thing that lives is Holy” (“Tudo
que vive é Sagrado”). Exatamente: a reverência aqui, como na música de Philip
Glass, não se dirige a nenhuma divindade, mas à vida. A vida mesma é sagrada, e
não a vida depois da morte, como quer o cristianismo.
Ouvindo Philip Glass
na Opera House, ficou claro por que sua obra é tão importante: música de
vanguarda sim, inteligente, inovadora, muitas vezes difícil e rarefeita, mas,
ao mesmo tempo, primária e primordial. E que, mais importante do que qualquer
coisa, continua uma das mais gloriosas tradições ocidentais, aquela, específica,
de Mozart (1756-1791), Schubert (1797-1828), Chopin (1810-1849) e Eric Satie
(1866-1925), eles também compositores de ópera (Mozart), canções (Schubert e
seus “lieder”) e de peças para o piano ao mesmo tempo elegantes, contidas e “minimalistas”
(todos eles). A grandeza de Philip Glass está exatamente aí, na reconciliação
dialética que sua música promove entre vanguarda e tradição, o extremamente
simples (primário, mesmo) e o magnificamente refinado.
Numa época da
história do ocidente em que abundam os comportamentos destrutivos e a
liquidação de outras tradições (inclusive as musicais) e culturas passou a ser
quase que a norma, é reconfortante perceber que ainda sobrevivem algumas
tradições propriamente “civilizadas” no mundo ocidental. Sentar numa sala de
concerto, silenciosa e reverentemente, e presenciar a criação de novas
harmonias, por alguns compositores de gênio e interpretadas por eles mesmos, é,
certamente, participar de uma cerimônia imemorial: a descoberta da beleza e da
verdade, e da equivalência entre elas (como queria John Keats, 1795-1821, poeta
romântico inglês). Ou, como disse James Joyce (l882-1941), esta seria uma epifania,
“aparição ou manifestação divina, festividade religiosa com que se celebra esta
aparição”, segundo o Novo Dicionário Aurélio.
Ao ouvir Philip
Glass em Sydney, escutávamos sua música incomparável, única, diferente. Ao
mesmo tempo audiência e compositor, estávamos, todos nós, uma vez mais,
celebrando um ritual tradicional, secular, quase imemorial. Philip Glass
naquela noite era, felizmente, Philip Glass; mas era, também, ao mesmo tempo e
sucessivamente, Mozart, Schubert, Chopin e Eric Satie.
~*~
Entrevista com Philip Glass: uma música que
leva ao êxtase
[entrevista
realizada em Sydney, no dia 11/1/1996, no Hotel InterContinental, e publicada
no Jornal Estado de Minas em 5/5/1996]
por
Mário Alves Coutinho*
Nascido em 1937 sob
o signo de Aquário, o compositor estadunidense Philip Glass sempre esteve longe
de ter uma carreira retilínea: ele é, na verdade, a contradição em pessoa.
Considerado um autor de vanguarda no início da carreira (década de 1960), hoje
já se pode argumentar que ele é um dos compositores mais respeitados da música
erudita e um dos mais escutados. Será mesmo?
Na
década de 1960 (e mesmo na de 70) sua obra realmente tinha todos os signos
exteriores da novidade extrema: ele fazia música erudita, mas com uma diferença
fundamental, a amplificação (só o rock e o pop, naquele momento, usava esse
recurso); óperas sem uma linha dramática definida, nas quais o que era cantado
podia não ser diálogos, mas números (one, two, three..., por exemplo, em “Einstein
on the Beach”, 1976); ou, ainda, óperas cantadas em línguas ditas exóticas
(e/ou mortas): sânscrito (“Satyagraha”, 1980), aramaico e hebraico (“Akhnaten”, 1984); uma música que, para a maioria das pessoas, não mudava nunca,
repetindo indefinidamente a mesma linha melódica; um rótulo extremamente
apropriado para um movimento de vanguarda:
minimalismo; e, finalmente, o atestado definitivo, naquela época
contestatória: nos seus concertos, somente seis pessoas na plateia, sendo que
uma delas era sua própria mãe...
Hoje,
Glass enche qualquer sala de concerto, mas sua sede pela inovação continua a
mesma. Uma das óperas que realizou foi “La Belle et la Bête” (1994), baseada no
filme homônimo de Jean Cocteau (1889-1963), realizado em 1946. Como aconteceu
essa colaboração diferente, na qual o autor do libreto (Cocteau) já estava
morto? Glass pegou a fita de Cocteau, desligou o som original, e compôs uma
outra trilha sonora, totalmente sincronizada em relação ao filme: aqui, os
diálogos originais se transformaram em árias que foram cantadas, então, por
cantores de ópera.
Na
entrevista que fiz com ele em Sydney, Austrália (1996), ele falava de uma
novidade que estava pensando desenvolver: a ópera interativa. O público (ou o
ouvinte) cantando junto com os cantores? Com Philip Glass, nunca é bom duvidar
de seus projetos, pois ele sempre realizou o que imaginava, por mais difícil
que tenha sido.
Mário
Alves Coutinho: Interpretar
sua própria música é uma escolha ou uma necessidade?
Philip
Glass: Quando
voltei para os Estados Unidos, em 1968, e compus meus experimentos minimalistas
mais extremos, não encontrei ninguém disposto a interpretar. Por isso mesmo,
formei meu próprio conjunto. De cara, descobri que podíamos interpretar minha
obra melhor do que qualquer outra pessoa (ou grupo): simplesmente podíamos dar
a ela a atenção que nenhum outro intérprete daria. O segundo motivo ficou
evidente mais tarde, quando comecei a fazer concertos-solo de piano. No início,
eu tocava órgão, mas apareceu então um problema com o qual eu não contava: não
existe um órgão de igreja igual ao outro, todos eles são diferentes. Com o
tempo desisti, e passei a usar o piano. No começo, eu só tinha arranjos de
algumas óperas (“Satyagraha”, “Einstein on the Beach”, por exemplo). Aos
poucos, comecei a compor coisas novas, especialmente para o piano.
Mário
Alves Coutinho: Alguma
lembrança especial daquela época?
Philip
Glass: Lembro-me
do primeiro concerto que dei, no Queens College, em Nova York. Pude contar seis
pessoas na audiência, sendo que uma delas era minha própria mãe. Os outros
cinco ouvintes tinham todos cabelos longos... Minha mãe olhou para mim e disse:
“Todos eles são seus amigos, não?” Sete anos depois ela veio de novo à cidade,
no Metropolitan Opera House, para ver “Einstein on the Beach”; desta vez pôde ver quatro mil pessoas
na plateia, nem todas elas meus amigos...
Mário
Alves Coutinho: Mudou
muito de lá para cá?
Philip
Glass: O
concerto que estou fazendo nesta turnê, por exemplo, é sempre dado em salas com
enorme capacidade de público. E, no entanto, é como se eu conhecesse todos os
espectadores. Quando sento ao piano, penso que estou tocando para cada uma das
pessoas da audiência. Quando isso realmente acontece, consigo estabelecer a
relação essencial que existe entre a música, a interpretação e a audiência. Um
dos segredos para se conseguir isso, além do mais, é ser capaz de (re)descobrir
a música que você está fazendo, a cada vez que a interpreta.
Mário
Alves Coutinho: Quando o Philip Glass compositor percebeu que não precisava
mais ser Philip Glass chofer de táxi e bombeiro?
Philip
Glass: Eu me lembro muito bem da ocasião. Foi em 1978, quando eu
tinha 41 anos. Mas veja bem: quando eu tinha 30 anos e já havia formado meu
conjunto, já me achava um compositor bem-sucedido. Tinha meu próprio conjunto,
fazia uma excursão por ano nos Estados Unidos e na Europa, e estava tocando
para uma audiência que era pequena, certamente, mas era minha, pelo menos... Não
achava, naquela época, que a vida poderia ficar muito melhor do que já era.
Como tinha meu próprio conjunto, eu não dependia de comitês, faculdades ou
festivais. Nos Estados Unidos, não existe o mínimo apoio às artes. Portanto,
tive que trabalhar em ocupações que podia abandonar facilmente, fazer uma
excursão e voltar novamente. Fiz todo tipo de coisas. Foi aos 41 anos que
obtive a primeira comissão para fazer uma ópera, “Satyagraha”, pela qual fui
pago cerca de 25 mil dólares que, naquela época, era muito dinheiro...
Mário
Alves Coutinho: Existe alguma relação entre o fato de seu pai ter sido dono
de uma loja de disco e sua profissão?
Philip
Glass: Acho que sim. Comecei a trabalhar com ele com 12 anos,
ainda na época dos discos de 78 rotações. Você podia, então, devolver 5% dos
discos não vendidos, mas antes os discos tinham que ser quebrados. Meu trabalho
consistia em pular sobre os discos, e quebrá-los. Será que isso criou, na minha
cabeça, uma perspectiva deformada sobre a música? Até hoje não tenho resposta
para essa pergunta...
Mário
Alves Coutinho: Sua música, de alguma maneira, convida o ouvinte à
participação. Você concorda com esse conceito?
Philip
Glass: Esta é, simplesmente, a questão fundamental da música
(arte) moderna. Nas minhas óperas, por exemplo, a história é completada pela
audiência. Essa é a lição que aprendemos com Duchamp, essa é a lição levada
adiante por John Cage, em que, para se falar a verdade, as obras são
completadas pela audiência. Quando eu era jovem, era comum essa ideia do “som
em si”. As pessoas achavam que se podia encontrar obras que tinham vida
independente do ouvinte. Para mim, uma obra nasce somente quando é interpretada
na frente da audiência: é somente nesse espaço entre a obra, o compositor e o
ouvinte que ela passa a ter uma existência tangível. Sem esse espaço, eu diria
que a música não foi realmente concebida.
Mário
Alves Coutinho: Você estudou matemática na universidade. Alguma conexão
entre sua música e a matemática?
Philip
Glass: A conexão está no fato de a música ser uma linguagem
abstrata, exatamente como a matemática. Uma diferença fundamental: a música
emociona as pessoas facilmente.
Mário
Alves Coutinho: Como você conheceu o grupo Uakti, para o qual produziu
alguns discos?
Philip
Glass: Eu os descobri quando eles estavam gravando “The Rhythm of
the Saints”, com o Paul Simon. Paul me perguntou se eu queria ouvi-los, no Rio
de Janeiro. Gostei demais. Quando comecei meu selo, na companhia onde gravo,
perguntei a eles se queriam que eu os produzisse. Já gravamos três discos. Eles
são simplesmente ótimos.
Mário
Alves Coutinho: O que distingue suas óperas da tradição operística
ocidental?
Philip
Glass:
O “algo mais” que distingue o teatro moderno é o trabalho feito conjuntamente
por escritores, dançarinos, coreógrafos, compositores, diretores. A maneira
antiga das pessoas trabalharem, uma única pessoa que “imaginava” uma obra e a
realizava sozinha, não acontece mais. Todas as óperas que eu fiz envolveram um
verdadeiro grupo de pessoas. Sempre tenho pelo menos uma pessoa nova para meus
trabalhos em colaboração: nunca trabalho com o mesmíssimo grupo. É claro que
repito algumas colaborações – Doris Lessing, a escritora, e Bob Wilson, diretor
de teatro, por exemplo – porque gosto da continuidade, também; mas acho
essencial trabalhar com gente que não conheço, mais jovem do que eu, o que se
torna cada vez mais fácil a cada ano que passa...
~*~
* Mário Alves Coutinho é doutor em Literatura Comparada pela
UFMG. Escritor, tradutor, ensaísta e crítico de cinema, entre suas principais
obras publicadas estão: “Aforismos musicais – extraídos de sua correspondência
completa”, de W. A. Mozart (org./tradução, Tipografia Musical, 2016); “A
explosão e o suspiro ou um corpo que cai” (romance, Tipografia Musical, 2015);
“O realismo impossível”, de André Bazin (org./tradução, Autêntica, 2016);
“Godard, cinema, literatura” (entrevistas, Crisálida, 2013); “Escrever com
câmera: a literatura cinematográfica de Jean-Luc Godard” (tese, Crisálida,
2010); “Tudo que vive é sagrado”, de William Blake e D. H. Lawrence (org./tradução,
Crisálida, 2010); “Canções da inocência e da experiência”, de William Blake
(tradução, Crisálida, 2005); “O livro luminoso da vida”, de D. H. Lawrence (org./tradução,
Crisálida, 2010); entre outros.
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